Invernagem do barco: o que fazer antes do frio chegar e o que não se pode fazer
A ordem dos trabalhos por sistema, três erros que saem caros na primavera, e uma resposta honesta sobre o que pode ser adiado. Para quem está a preparar o barco pela primeira vez.
O barco não é destruído pelo inverno. O barco é destruído pela água que fica dentro dele no outono: no circuito de arrefecimento, nos tubos do permutador de calor, na sanita marítima, na mangueira do chuveiro do convés. Ao congelar, ela rebenta aquilo que custa mais do que toda a invernagem.
Vamos analisar por sistemas, em que ordem proceder, e, à parte, o que pode ser adiado com tranquilidade e o que não pode, em nenhuma circunstância.
Primeiro — decidir onde o barco vai passar o inverno
Metade dos trabalhos depende disto.
Na água. Menos trabalho, mas o barco continua sob carga: gelo, vento, ondas de embarcações que passam. São necessárias bombas de porão em bom estado, amarras fiáveis e alguém que passe a bordo a cada duas semanas.
Em terra. Mais caro e trabalhoso, mas o casco descansa, o fundo seca, e na primavera pode-se examinar com calma o hélice, o leme e as tomadas de água do costado.
Num hangar aquecido. Caro. Justifica-se para madeira e para barcos com acabamentos delicados.
A seguir vem a ordem geral. Onde o tipo de invernagem muda alguma coisa, isso é dito à parte.
Motor: o principal ponto onde algo rebenta
Circuito de água do mar
É aqui que fica a água. A ordem é a seguinte:
- Feche a torneira de fundo, retire a mangueira do filtro de água do mar.
- Mergulhe a mangueira num bidão com anticongelante para sistemas de arrefecimento.
- Ligue o motor em rotações baixas e deixe-o puxar o anticongelante através de si mesmo, até que saia líquido colorido pelo escape.
- Desligue assim que ele aparecer.
Assim, o anticongelante chega a todos os lugares onde havia água do mar: na bomba, no permutador de calor, no sifão de água, na mangueira de escape.
Use um anticongelante calculado para uma temperatura inferior à sua noite mais fria, com uma margem de dez graus. Poupar aqui não faz sentido: a diferença de preço é o custo de um jantar, e um permutador de calor rachado custa como umas boas férias.
Rotor da bomba
O rotor de borracha, depois de passar o inverno comprimido, na primavera frequentemente racha na base das pás. Há duas abordagens: retirá-lo e guardá-lo num local quente até à primavera, ou deixá-lo e substituí-lo na desconservação.
É mais simples retirá-lo. Aproveite para contar as pás — porque isso é importante, já foi explicado à parte.
Óleo e filtros
O óleo troca-se no outono, não na primavera. Isto não é um capricho: o óleo usado é ácido, contém água e produtos de combustão, e deixá-lo no motor durante meio ano significa envenenar os rolamentos o inverno todo. Trocou, deixou funcionar dez minutos, desligou.
Troque também o filtro de combustível no outono.
Combustível
Deixe o depósito cheio. Um depósito vazio acumula condensação nas paredes durante o inverno, a água desce, e na primavera encontra água na tomada de combustível e colónias no gasóleo.
Adicione biocida, se o barco ficar num local quente. No frio, os microrganismos ficam inativos, mas no sul os invernos são amenos.
Água doce e sanita marítima
Tudo o que contém água deve estar vazio ou cheio de anticongelante não tóxico.
- Depósito e tubagens. Esvaziar, bombear anticongelante por todas as torneiras, incluindo o chuveiro do cockpit — este é o que mais se esquece.
- Esquentador. Esvaziar obrigatoriamente, tem um bujão próprio.
- Sanita marítima. Bombear anticongelante através da bomba até deslocar toda a água. Esvaziar e lavar o depósito.
- Bombas de porão. Garantir que não fica água no casco.
O anticongelante para sistemas de água potável é diferente, não tóxico, geralmente rosa. Não o confunda com o anticongelante do motor.
Baterias
Uma bateria descarregada congela a menos dez, uma carregada aguenta menos quarenta. Daí a regra: as baterias devem passar o inverno carregadas.
- Se houver rede elétrica em terra — deixe o carregador em modo de manutenção.
- Se não houver rede — carregue totalmente, desligue a massa, e volte a cada dois meses para recarregar.
- As baterias de chumbo autodescarregam-se visivelmente mais depressa do que as de lítio. Ao longo de um inverno sem recarga, uma bateria antiga pode entrar em descarga profunda e não recuperar.
Faz sentido retirar as baterias do barco e levá-las para casa se o barco ficar sem vigilância e as baterias forem novas e caras.
Casco e convés
Fundo. Lavar logo após a içagem, enquanto a incrustação ainda está molhada: seca, demora o triplo do tempo a remover. Inspecionar em busca de bolhas — isto é osmose, e é melhor saber disso no outono, quando há meio ano para decidir.
Tomadas de água do costado. O outono é a única altura conveniente para inspecionar os tubos pelo exterior. O que procurar e quando substituir.
Convés. Retirar tudo o que retenha água e sujidade: almofadas, cabos, velas. Vedar ou fechar as aberturas de ventilação de forma a que o ar circule, mas a água não entre. Um barco completamente hermético cobre-se de bolor por dentro durante o inverno.
Cobertura. Esticar de forma a que a água escorra, em vez de se acumular em poças. A poça congela, o gelo rasga a cobertura e amolga aquilo sobre o qual a cobertura assenta.
Velas e mastreação
Retirar as velas, secá-las completamente e guardá-las secas. Uma vela húmida dentro do saco cria bolor durante o inverno, e isso não sai na lavagem.
Retirar a cordoalha corrente, lavar em água doce, secar. Inspecionar a cordoalha fixa em busca de manchas de ferrugem e fios partidos; no outono há tempo para isso, na primavera já não há.
Três erros que saem caros
Primeiro: fechar o barco hermeticamente. Sem ventilação, forma-se bolor lá dentro durante o inverno, as almofadas, o estofo e os armários ficam húmidos. É preciso circulação de ar: escotilhas entreabertas sob a cobertura, chaminés de ventilação, desumidificadores na cabina.
Segundo: deixar água "porque não vai congelar". No Mediterrâneo há noites de geada no inverno, e basta uma dessas noites. Um bidão barato de anticongelante contra um permutador de calor rachado é uma escolha sem escolha.
Terceiro: adiar a troca de óleo para a primavera. O erro mais comum e mais discreto. O motor fica meio ano parado no óleo ácido usado, e as consequências não aparecem de imediato nem de forma óbvia.
O que pode ser adiado sem prejuízo
Polir o casco, renovar o verniz, pintar o fundo, substituir os ânodos — tudo isto pode ser feito com calma na primavera, antes da botadura. No outono não vale a pena gastar tempo com isso.
Regra principal: no outono faz-se o que protege da água e do gelo. Todo o resto — na primavera.
O que retirar, caso seja preciso uma peça na primavera
A inspeção de outono é o melhor momento para reunir informação sobre o que está na altura de substituir: de qualquer forma vai mexer em todos os cantos, e até à primavera há tempo para encontrar a referência com calma.
- A chapa de identificação do motor em grande plano — fabricante, modelo, número de série. Como ler e retirar.
- A peça retirada junto a uma régua, de dois lados.
- A marcação no próprio componente — a bomba, o permutador de calor, o termóstato têm números próprios.
- O local de instalação visto por dentro, para perceber a disposição.
Com este conjunto, a peça encontra-se num dia, mesmo quando o revendedor diz que a referência foi descontinuada.
Em resumo
Passar anticongelante pelo circuito de água do mar, trocar o óleo e o filtro de combustível, encher o depósito até ao bocal, esvaziar e proteger a água doce e a sanita marítima, deixar as baterias carregadas, lavar o fundo de imediato e garantir ventilação interior. Um dia de trabalho no outono — e na primavera vai pôr o barco na água, não repará-lo.